“Policiais do Paraná que sofrem com dependência química precisam de ajuda e tratamento”, afirma Renato Freitas
Publicado no dia
O uso de substâncias químicas por policiais militares foi ponto de debate na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Assembleia Legislativa do Paraná na última terça-feira (03). O embate foi provocado pela leitura do projeto de lei 362/2019, que obriga a realização de exame toxicológico para o ingresso de estudantes nas universidades públicas estaduais. Os deputados Renato Freitas (PT) e Tito Barrichello (União) se manifestaram sobre o tema.
Relator do projeto, Tito Barrichello encaminhou o PL para avaliação da Secretaria de Estado da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (Seti), mas afirmou reconhecer “a necessidade de estabelecer os critérios para o acesso, impedindo que pessoas usuárias de drogas e o tráfico de drogas tomem conta das nossas universidades”.
Por outro lado, Renato Freitas defendeu que a dependência química é um assunto de saúde e não deve ser tratado por um viés punitivista. O parlamentar usou a categoria policial para exemplificar seu ponto.
“Uma quantidade significativa do efetivo policial do Paraná sofre com a dependência química e esse é um problema que não deve ser criminalizado, e sim tratado”, afirmou Renato.
Segundo Freitas, dentro da corporação o tema ainda é tratado com estigma, o que dificulta que policiais procurem ajuda. “A dependência é vista como fraqueza. O olhar estigmatizante e punitivo lançado pela própria corporação não incentiva o diálogo entre os policiais”, disse.
O parlamentar acredita que o problema tem impacto direto na atuação policial. “Isso não coloca apenas a vida deles em risco, mas principalmente a vida de jovens pobres e negros das periferias urbanas que são abordados todos os dias sob a mira desses policiais”, seguiu.
Um problema histórico
A fala do deputado é validada por um histórico que aponta o consumo de substâncias químicas, especialmente cocaína e crack, entre integrantes das forças de segurança. Durante a epidemia do crack nos anos 1990, relatórios internos da Polícia Militar de São Paulo já indicavam a presença de dependência química entre os agentes.
Uma reportagem da Folha de S.Paulo apontou que, apenas em 1997, foram registrados 269 casos de policiais militares usuários de drogas na corporação. Especialistas da época estimavam que o número real poderia ser até três vezes maior.
Naquele período, médicos da própria instituição também alertavam que o uso de drogas poderia estar relacionado a episódios de violência policial. Relatórios internos apontavam a incidência de consumo de substâncias entre parte dos policiais envolvidos em mortes de civis ou abusos de poder.
Saúde Mental dos Agentes de Segurança
Freitas também relacionou o debate à saúde mental dos agentes.
“Os principais inimigos dos policiais não são aqueles assassinados às centenas nos supostos confrontos. A causa número um de mortes de policiais militares no estado do Paraná e no Brasil é o suicídio”, lembrou.
Durante o governo Ratinho Júnior, 44 policiais cometeram suicídio, número quase nove vezes maior que o de agentes assassinados em serviço no mesmo período, que soma cinco casos. As informações são do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
Dados do Boletim de Notificação de Mortes Violentas Intencionais Autoprovocadas e Tentativas de Suicídio entre Profissionais de Segurança Pública apontam que a Polícia Militar do Paraná responde por 57% das tentativas de suicídio entre profissionais de segurança pública no Brasil, entre 2020 e 2024.
No período analisado, o país contabilizou 1.474 tentativas de suicídio entre agentes de segurança pública e 844 dos casos foram registrados no Paraná. O levantamento, publicado pelo Instituto de Pesquisa, Prevenção e Estudos em Suicídio (IPPES), coloca o Paraná na primeira posição do ranking nacional de tentativas de suicídio entre agentes de segurança pública.
Para Renato, o consumo de substâncias também pode estar relacionado ao sofrimento psicológico enfrentado por parte dos policiais. “Quando se testemunha injustiças sendo cometidas e se permanece em silêncio, a memória e a consciência se tornam cúmplices. O uso de drogas, como em tantos casos na sociedade, acaba funcionando como um anestésico, um socorro imediato. CPF na nota. A farmácia vira uma biqueira com CNPJ”, concluiu.
Falso debate nas redes sociais
Em uma postagem nas redes sociais, o bolsonarista Tito Barrichello escreveu que Renato Freitas teria chamado policiais de drogados. Apesar da tentativa de distorcer o posicionamento de Freitas, os seguidores de Tito defenderam a necessidade dos exames nos agentes da corporação.
Um usuário sugere: “vamos colocar exame toxicológico a cada 6 meses para policiais? Quem não deve não teme”. Outro opina: “pra que esse show todo, faz o exame, eu duvido que ele esteja errado”. Um terceiro comentário aponta: “muitos usam drogas, correm junto com traficantes, bebem cachaça, roubam, vendem drogas, matam inocentes. População sabe disso desde sempre”.