PMs matam aposentado com esquizofrenia durante chamado para internação involuntária

Vilmar Penteado é a segunda pessoa com deficiência morta pela PM durante um surto neste ano; familiares denunciam uso de força letal desproporcional.

O aposentado Vilmar Penteado, de 39 anos, foi morto por agentes da Polícia Militar do Paraná dentro de sua própria casa, em Piraquara, Região Metropolitana de Curitiba. Diagnosticado com esquizofrenia e com membros atrofiados, ele estava em surto quando foi atingido por dois disparos de arma de fogo. O caso ocorreu no dia 7 de março. Em janeiro, Maykon Lima, de 24 anos, também foi morto pela PM em circunstâncias semelhantes na cidade de Bandeirantes, no norte do estado.

Vilmar havia recebido alta médica há poucos meses, com redução na dosagem de medicamentos, o que pode ter resultado no retorno das crises. Naquele sábado, familiares relataram que ele estava agitado. Em episódios anteriores, os irmãos conseguiam contê-lo, mesmo quando ele pegava facas. No entanto, naquele dia, apenas mulheres e idosos estavam na residência, o que levou ao pedido de ajuda da Polícia Militar e do Samu. A intenção da família era internar Vilmar novamente para que os médicos reavaliassem o tratamento.

Ação, disparos e contradições

Quatro policiais participaram da ação. Eles arrombaram a porta da pequena casa onde Vilmar vivia, construída no terreno da casa dos pais. Segundo testemunhas, logo após a entrada, foi ouvido um primeiro disparo, seguido por gritos de dor e, minutos depois, mais três tiros. A família considera o uso de força letal desproporcional, já que Vilmar estava em surto psiquiátrico e tinha limitações motoras.

No boletim de ocorrência, os policiais alegaram que o primeiro disparo foi de taser (dispositivo de eletrochoque de menor potencial ofensivo), mas testemunhas relatam que o som foi semelhante ao de arma de fogo. Marcas de sangue dentro da casa indicam que o corpo pode ter sido movido entre os cômodos, o que não foi explicado na versão oficial.

A Polícia Militar afirmou que Vilmar teria feito a própria mãe refém e avançado contra os policiais com um machado e uma faca. Já familiares e testemunhas negam que qualquer pessoa tenha sido mantida refém. Eles reforçam que Vilmar estava sozinho na casa no momento da ação.

Além disso, a presença de marcas de sangue que começam na cozinha e seguem até o quarto levanta dúvidas sobre a dinâmica apresentada no boletim de ocorrência. Para a família, Vilmar foi baleado dentro da casa durante uma tentativa de contenção, e não em confronto direto com os policiais.

Segunda morte em dois meses

A morte de Vilmar ocorre menos de dois meses após o caso de Maykon Lima, de 24 anos, também diagnosticado com esquizofrenia, morto pela PM em Bandeirantes. Assim como em Piraquara, a polícia foi acionada para auxiliar em uma internação psiquiátrica.

Maykon foi baleado ao tentar fugir com uma faca. Segundo relatos, não houve tentativa de diálogo ou uso de métodos não letais antes dos disparos. Nos dois casos, as famílias questionam a ausência de alternativas à força letal em ocorrências de saúde mental.

Projetos contra a violência policial

Tramitam na Assembleia Legislativa do Paraná projetos de lei do deputado Renato Freitas para enfrentar a violência policial. Entre eles, o PL 448/2019, que prevê a instalação de câmeras em viaturas e uniformes da Polícia Militar, com transmissão em tempo real e arquivamento das gravações.

Outros projetos incluem o PL 929/2023, que proíbe o uso de imagens de operações em redes sociais, e o PL 25/2024, que estabelece medidas obrigatórias após casos de letalidade policial, como o afastamento imediato do agente envolvido e a investigação independente.

“Se alguns agentes da segurança pública agem apagando provas e ameaçando testemunhas, é preciso garantir, por força de lei, que a sociedade tenha instrumentos para se proteger da violência policial”, afirma o deputado Renato Freitas.

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