Cabelo de lixiguana’: radialista Valdomiro Cantini, que fez fala racista contra Renato Freitas, confessou improbidade administrativa em acordo com MP

O parlamentar protocolou representação no Ministério Público do Paraná (MPPR) após declarações feitas ao vivo pelo CEO da Massa FM de Cascavel

O deputado estadual Renato Freitas (PT) protocolou uma representação no Ministério Público do Paraná (MPPR) contra o radialista Valdomiro Cantini, apresentador do programa “Microfone Aberto”, da Massa FM de Cascavel. Cantini fez comentários racistas contra o parlamentar durante um programa ao vivo no dia 3 de março. Ao realizar a chamada de uma reportagem sobre uma decisão do Conselho de Ética envolvendo Renato, o apresentador se referiu ao parlamentar negro como “aquele do cabelo de lixiguana”.

A expressão fez referência às colmeias produzidas por espécies de vespa conhecidas popularmente como lixiguana, sugerindo uma comparação com o cabelo do parlamentar. Na sequência, o apresentador continuou com as declarações: “Gente, vou te contar uma coisa… Tira uma geladeira do cabelo, tira o celular. Que loucura!”. Durante a fala, ele também faz gestos com as mãos, simulando o que seria o formato do cabelo do deputado. O trecho foi transmitido ao vivo e permanece disponível na gravação do programa publicada no YouTube.

“Infelizmente já estou acostumado com a campanha permanente de calúnia e difamação promovida pela grande mídia contra mim, sobretudo quando o ataque parte do GRUPO MASSA, cujo proprietário é nada mais nada menos que o pai do governador Ratinho Jr. Mas não posso deixar essa gente se sentir livre para ofender todos nós que nos livramos das amarras do racismo e libertamos nossos cabelos que eles querem presos ou raspados. Ele não atacou só a mim, e sim a toda pessoa negra que ousa ostentar seu Black Power”, disse Renato ao se pronunciar sobre o caso.

Além de apresentador, Cantini também ocupa o cargo de CEO da Massa FM em Cascavel. A emissora integra o grupo de comunicação do apresentador e empresário Carlos Roberto Massa, pai do governador do Paraná, Ratinho Júnior.

O radialista já realizou um acordo de não persecução cível com o Ministério Público para não responder por ato de improbidade administrativa.

Outras denúncias contra Valdomiro Cantini

O apresentador e dirigente da rádio no oeste do Paraná, Valdomiro Cantini, também já foi alvo de diferentes investigações relacionadas à administração pública. O Ministério Público do Paraná denunciou o radialista por participar de um suposto esquema de fraudes em licitações para obras de pavimentação em Capanema, no sudoeste do estado, em 2016. O caso teria envolvido a então prefeita do município, Lindamir Maria de Lara Denardin.

De acordo com a denúncia, Cantini teria atuado como “sócio” da empresa participante das licitações. O radialista teria agido nos bastidores para favorecer a empresa em que tinha interesse particular e participado dos contratos firmados com o poder público.

A empresa vencedora do processo licitatório não teria atendido a todos os critérios previstos no edital, o que, segundo o Ministério Público, indicaria que não houve real concorrência entre os participantes do pregão.

Além desse caso, Cantini também foi alvo de outra investigação com a mesma ex-prefeita, Lindamir Maria de Lara Denardin, na qual teria usado máquinas públicas do município de Capanema para fins particulares. O radialista teria solicitado à então prefeita a utilização de equipamentos da prefeitura para a realização de serviços em propriedade particular.

De acordo com a investigação, escavadeiras, tratores e uma pá carregadeira, pertencentes ao município ou contratados pela administração pública, teriam sido utilizados na propriedade do radialista, com operação realizada por servidores públicos.

Nesse caso, Cantini assinou um acordo de não persecução cível com o Ministério Público e teve que ressarcir o município, além de pagar multa.

Representação por racismo

Na representação encaminhada ao MPPR, a defesa de Renato Freitas sustenta que as declarações podem configurar crime de racismo previsto na Lei Federal nº 7.716/1989, que trata dos crimes resultantes de preconceito de raça ou cor.

Para o parlamentar, as falas ultrapassam o campo da mera grosseria ou crítica política, e configuram ataques desumanizantes de cunho racial, atingindo não apenas sua honra subjetiva, mas também sua atuação institucional como representante eleito.

A representação também destaca que as falas foram feitas em meio de comunicação tradicional e de grande alcance, o que amplia a gravidade dos comentários. A defesa sustenta ainda que as declarações foram direcionadas a um agente público no exercício do mandato parlamentar e que a conduta tem relação com sua atuação política.

Nota do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Paraná
Em nota assinada pela Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial e pela Diretoria do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Paraná, a categoria repudia as falas do apresentador.

Leia a nota na íntegra:

O Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Paraná (SindijorPR) manifesta repúdio às falas racistas do apresentador Valdomiro Cantini, da rádio Massa FM. O comunicador ironizou o cabelo em estilo black power do deputado estadual Renato Freitas (PT), eleito pelo povo paranaense.

Popularizado nos anos 1960, no contexto do movimento Black Power e da luta pelos direitos civis da população negra, o cabelo natural volumoso tornou-se um dos símbolos mais fortes da identidade afro, representando resistência, orgulho e afirmação da negritude.

Transformar esse símbolo em piada revela não apenas preconceito, mas também um preocupante déficit de letramento histórico e racial por parte de quem ocupa um microfone público.

O SindijorPR lembra que o rádio opera por meio de concessão pública, o que exige responsabilidade, respeito e compromisso com os valores democráticos. O uso jocoso de características físicas de um homem negro é inaceitável. Racismo não é opinião. É atraso. Precisa ser enfrentado sempre que se manifeste.

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