Carrefour e Muffato: assassinatos são desprezados enquanto avançam julgamentos contra deputado que protestou por justiça às vítimas

Deputado Renato Freitas (PT-PR) pode ter mandato suspenso por protesto contra assassinato

O protesto pela valorização da vida e contra assassinatos brutais nos supermercados Carrefour e Muffato repercutem ainda hoje para o deputado estadual Renato Freitas, uma das principais lideranças políticas no Paraná. O parlamentar enfrenta um processo judicial e representações contra o mandato depois que participou de mobilizações por justiça para Beto Freitas, espancado até a morte por seguranças do Carrefour, em Porto Alegre; e para Rodrigo Boschen, espancado e assassinado por funcionários do Muffato, em Curitiba.

Em reunião desta terça-feira (28), o Conselho de Ética da Assembleia Legislativa do Paraná deu prosseguimento a quatro processos que alegam quebra de decoro parlamentar contra Freitas. Um deles referente à participação de Renato no protesto dentro do supermercado Muffato, no bairro Portão, em Curitiba. O ato aconteceu após Rodrigo Boschen, de 22 anos, ter sido assassinado por funcionários do estabelecimento. Ele foi perseguido e espancado após supostamente ter furtado uma barra de chocolate.

O relator do processo, deputado Artagão Jr, pediu a suspensão do mandato de Renato Freitas por 30 dias e alegou que o parlamentar teria invadido o supermercado e liderado a manifestação, mesmo que todos os depoimentos tenham apresentado outra versão. Para o relator, a “ausência de violência física ou de danos materiais não descaracteriza a
inadequação ética da conduta”.

O deputado Dr. Antenor (PT) pediu vistas do processo e a decisão final foi transferida para a próxima semana.

Sobre o mesmo caso, o parlamentar também foi alvo de uma denúncia no Ministério Público, sob acusação de “invasão” do supermercado. A própria empresa, no entanto, negou a existência de depredação ou violência por parte dos manifestantes, descrevendo o protesto como pacífico. O Ministério Público arquivou o caso.

Caso Carrefour

Dois assassinatos cruéis, em circunstâncias semelhantes, envolvendo grandes redes de supermercados. Ainda assim, o centro do debate não recai sobre as empresas ou os assassinos, mas sobre quem decidiu protestar contra elas.

Em 2020, na véspera do Dia da Consciência Negra, dois seguranças de uma unidade do Carrefour, em Porto Alegre, assassinaram João Alberto Silveira Freitas, um homem negro de 40 anos. As imagens da agressão se espalharam rapidamente pelo país, desencadeando protestos contra a violência racial no Brasil.

Em Curitiba, então vereador recém-eleito, Renato Freitas se uniu às manifestações. Ao receber uma lata de tinta de um dos manifestantes, escreveu em uma das paredes de acesso do estacionamento uma frase de Martin Luther King Jr: “A injustiça em qualquer lugar é uma ameaça à justiça em todo lugar”.

Três anos depois, o Ministério Público do Paraná decidiu processá-lo por sua participação no ato. Em julho de 2024, após críticas do parlamentar a privilégios do Judiciário estadual, o juiz César Maranhão de Loyola Furtado o condenou a três meses de prestação de serviços comunitários. A decisão ainda é contestada na Justiça.

Facebook
Email
WhatsApp