Memória, denúncia e mobilização política marcaram a audiência pública realizada nesta quarta-feira (13), na Assembleia Legislativa do Paraná (Alep), para celebrar os 30 anos de fundação do Movimento Negro Unificado no Paraná (MNU-PR) – Seção Carlos Adilson de Siqueira.
A audiência foi proposta pelo MNU-PR em conjunto com o mandato do deputado estadual Renato Freitas (PT). Diante de lideranças comunitárias e religiosas, além de parlamentares, ele falou sobre a importância da ocupação de espaços de decisão e do enfrentamento à violência que atinge a população negra.
Renato refletiu também sobre o 13 de maio, data que marca a assinatura da Lei Áurea, que deu fim ao regime escravocrata no Brasil. “Foi uma falsa abolição. Não tivemos terra. Não tivemos casa. Não tivemos indenização pelo tempo trabalhado. Nos foi negado o direito à educação”, disse o deputado, para quem o parlamento deve ecoar as vozes das periferias, um dos desafios de seu mandato.
A data de 13 de maio, fundação da seção paranaense do MNU, em 1996, serviu como pano de fundo para uma análise crítica sobre a “abolição inacabada”. A ativista Almira Maria Maciel relembrou os perigos da fundação do movimento na capital.
“Havia medo de andar nas ruas por causa dos skinheads (neonazistas). Carlos Adilson de Siqueira foi um jovem assassinado por racismo”, pontuou Almira, destacando a importância da solidariedade entre entidades na construção dessa história.
Espaços de Poder
A audiência destacou que a presença negra em locais de decisão ainda enfrenta barreiras institucionais severas. A deputada federal Carol Dartora (PT) ressaltou que, embora as conquistas sejam motivo de celebração, a estrutura racista tenta reverter avanços.
“É emocionante ver a celebração das conquistas, como as cotas. Mas a abolição inacabada mantém o racismo e impõe barreiras para nós, como a tentativa de cassação do deputado Renato”, afirmou Dartora.
Reforçando o tom de união, a vereadora Giorgia Prates (PT), de Curitiba, declarou: “Nós não vamos sucumbir. Vamos seguir de mãos dadas. E seremos resistência sempre”.
O vereador Anderson Prego, de Colombo também pautou a urgência de novas garantias: “Vamos construir muito mais lutas e direitos. O racismo religioso é um crime contra as crenças de matriz africana todo dia”.
Vivências e denúncias
O relato das lideranças comunitárias trouxe para o centro do debate a realidade das periferias e a perseguição religiosa. A Iyalorixá Iyagunã Dalzira Maria Aparecida expôs a dificuldade de exercer a própria fé: “A luta é para manter de pé uma religião milenar, mas ainda se precisa pedir licença para cultuar nossos orixás. O racismo estrutural se transforma e nos surpreende”.
Andreia Soares de Lima, da Usina de Ideias, denunciou a vigilância constante sobre os corpos negros: “A gente não tem sossego. O Estado não nos deixa dormir ou acordar em paz. Se colocar como antirracista nas redes sociais todo mundo quer, mas ser perseguido no supermercado, quem quer?”.
Um dos momentos mais impactantes da noite foi o desabafo de Joelma da Costa Lara, que integra o coletivo de mães contra a violência policial. “Destruíram meu sonho, a minha vida. A mentira do confronto causa mais revolta. Meu filho não estava com arma nem drogas”, declarou sob forte comoção do auditório.
Presenças
Também contribuíram com o debate e compuseram a mesa de diálogo: mestra Fernanda Machado; Kunta Leonardo da Cruz (Quilombo Paiol de Telha); Diorlei Santos (Afropretinhosidade); Celina do Carmo da Silva Wotcoski (APP Sindicato); Clemilda Santiago (SEMIPI); Lucimar Rosa Dias (NEAB/PROAFE); David Alexandre de Santana Bezerra (NUPIER/Defensoria Pública do Estado do Paraná) e Wilzort Cenatus (CONSEPIR).






