Ninguém cala um de nós: Renato Freitas supera violência policial, ofensivas do sistema, cassação e segue na luta contra poderosos na Alep

Deputado estadual tem um histórico de perseguição política e racial

“VOCÊ NÃO VAI SER POLÍTICO PARA SEMPRE” — Esta frase faz parte de uma ameaça feita por um policial militar do Paraná contra Renato Freitas (PT), durante uma abordagem em janeiro deste ano. O parlamentar conseguiu registrar parte da intimidação em vídeo. “Eu vou ser policial pra sempre, você não vai ser político pra sempre”, disse o agente.  A frase reflete o desejo dos herdeiros do poder paranaense que perseguem um político negro na sanha de expurgá-lo da vida pública e condená-lo à condição reservada às pessoas negras na sociedade brasileira: o silêncio. 

Essa é apenas uma das diversas ocasiões em que Renato Freitas foi perseguido, ameaçado e confrontou instituições de poder no Paraná.

Renato é deputado estadual, mestre em Direito e, por conta de sua trajetória de vida e enfrentamento às injustiças estruturais do estado, tornou-se uma das principais lideranças negras do Paraná e do Brasil. Freitas já enfrentou cassação na Câmara Municipal de Curitiba, abordagens policiais violentas e disputas judiciais arbitrárias.

A perseguição da extrema direita é tamanha que fez com que o parlamentar fosse destaque no jornal inglês The Guardian, o que internacionalizou denúncias sobre a atuação de instituições do Paraná e Curitiba, a autoproclamada “capital europeia do Brasil”. Em meio a esse cenário, Renato Freitas tornou-se símbolo de resistência e enfrentamento aos corruptos, ao racismo e à violência estatal.

Renato tem resistido dentro da Assembleia Legislativa do Paraná (Alep). A perseguição contra o parlamentar negro chegou ao ponto de ele concentrar mais de 70% das representações do Conselho de Ética desta legislatura na Casa. Elas envolvem desde discursos em tribuna e manifestações públicas até denúncias feitas pelo próprio parlamentar contra colegas da Casa e autoridades.

No dia 11 de maio, o Conselho de Ética da Alep recomendou a cassação de Renato pelo episódio em que ele reagiu a uma agressão racista, após um motorista quase atropelar o parlamentar e sua companheira grávida, além de proferir ofensas racistas e tentar intimidá-lo. Na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), a recomendação foi referendada. Em meio a relatores suspeitos e desprezo pelas teses da defesa, o processo já nasceu com o resultado final definido: cassar Renato Freitas e retomar o silêncio sobre os crimes de colarinho branco.


Curitiba sempre foi cenário hostil

Muito antes de se tornar vereador e, posteriormente, deputado estadual, Renato Freitas já era alvo recorrente de violência policial e abordagens abusivas. Homem negro, advogado e oriundo da periferia, Freitas enfrentou o cenário hostil de uma cidade que se vende como “branca e europeia” e construiu sua trajetória política a partir do enfrentamento às forças de segurança e instituições públicas.

Em 2016, durante a primeira campanha eleitoral de Renato, ele sofreu uma abordagem policial violenta na Rua do Rosário, no centro de Curitiba. Conversava com conhecidos quando foi alvo de uma abordagem racista. Um policial bateu sua testa contra a parede, o algemou de forma cruel, desacreditou que um homem negro pudesse ser advogado e o acusou de portar uma carteira falsa da OAB. Na delegacia, Renato sofreu métodos de tortura psicológica: foi despido em público, diante de todos, e filmado nu.

No ano seguinte, em 2017, outro episódio ocorreu nas proximidades do estádio Couto Pereira. Após atender clientes ligados à torcida do Coritiba, Freitas e um amigo foram abordados por policiais militares. Os agentes passaram a proferir xingamentos e ameaças. Na delegacia, acusaram Renato de usar sua cor para “oprimir” o Estado, invertendo a lógica de um país em que o Estado sistematicamente oprime pessoas negras — como demonstra o próprio caso: um advogado negro retornando do trabalho quando é abordado sem qualquer fundamento.

O caso terminou com absolvição de Freitas e condenação da atuação policial.

Já em 2018, logo após prestar depoimento sobre um dos episódios anteriores, a perseguição se intensificou. Renato entregava panfletos durante a campanha eleitoral quando foi surpreendido e baleado por guardas municipais. Novamente sofreu violência estatal, agora em um caso que ganhou repercussão nacional após publicações da Mídia Ninja e Jornalistas Livres.

Ao longo dos anos seguintes, episódios semelhantes se repetiram. Em manifestações e atos públicos, Renato voltou a ser preso e agredido. Em 2020, uniu-se a familiares de pessoas encarceradas em protesto contra tortura no sistema penitenciário, quando a manifestação foi reprimida e o então ativista novamente agredido por policiais militares.

O cenário hostil de Curitiba tentou inclusive impedir o parlamentar de acessar lazer e ocupar a cidade.

Em 2021, já vereador, Renato e um amigo, David Stilo, jogavam basquete na Praça 29 de Março quando policiais decidiram abordá-los após sentirem cheiro de maconha. No caminho, descobriram que quem fumava era um jovem branco, mas seguiram a investida contra os dois homens negros. Como justificativa, inventaram outro motivo: o volume de uma caixa de som.

Mesmo com testemunhas afirmando que não havia qualquer irregularidade, insistiram na abordagem e levaram ambos presos.

Os questionamentos contra abordagens ilegais, que resultaram em prisões e agressões, compõem a chamada “capivara” do parlamentar, frequentemente citada por opositores políticos, mas raramente mostrada ao público. Não por acaso: ela é composta majoritariamente por acusações de desacato e resistência à prisão — ou seja, pela recusa em aceitar ilegalidades cometidas por forças de segurança.

A chegada à Câmara e a cassação

A ascensão de Renato Freitas à Câmara Municipal de Curitiba não alterou sua postura nem reduziu a intensidade dos conflitos.

Eleito vereador em 2020, enfrentou ainda nos primeiros meses de mandato seu primeiro processo no Conselho de Ética, após utilizar o termo “pastores trambiqueiros” para se referir a lideranças religiosas que defendiam cloroquina como tratamento para Covid-19, medicamento sem eficácia comprovada.

O processo foi arquivado, mas já demonstrava como o Conselho de Ética seria utilizado como instrumento de perseguição política.

Sua postura de enfrentamento culminou no episódio da Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, em fevereiro de 2022, que mais uma vez projetou a perseguição contra Renato a nível nacional.

Manifestantes ligados ao movimento negro protestavam contra assassinatos de pessoas negras ao lado da igreja, local simbólico para a população negra de Curitiba. Após o término da missa, entraram no templo e realizaram um breve ato diante do altar, com a anuência do pároco, que cedeu o microfone da igreja para que os presentes se pronunciassem.

Logo em seguida, imagens editadas circularam nas redes sociais acompanhadas da falsa narrativa de que a celebração religiosa havia sido interrompida. A versão foi posteriormente desmentida por registros internos da igreja e pelo próprio padre Luiz Haas.

Apesar das provas e do pedido do sacerdote, a Câmara Municipal aprovou a cassação de Renato Freitas por quebra de decoro parlamentar.

A decisão repercutiu nacionalmente e transformou o caso em símbolo do conflito entre liberdade de manifestação, conservadorismo religioso e perseguição institucional contra lideranças negras.

Em 2022, durante a defesa de seu mandato, Renato recebeu convite para ir a Roma e encontrar o Papa Francisco em evento internacional com economistas e lideranças políticas. O encontro levou ao conhecimento do pontífice a perseguição sofrida pelo parlamentar na chamada “República de Curitiba”.

Foi em Roma que Freitas soube da decisão do ministro do STF, Luís Roberto Barroso, suspendendo os efeitos da cassação. Na decisão, Barroso entendeu que o processo violou garantias legais e ressaltou que punições dessa natureza afetam não apenas direitos individuais do parlamentar, mas também o princípio democrático.

Nesse período, Renato já fazia campanha para deputado estadual sem sequer saber se estaria elegível. Foi obrigado a realizar campanha quase marginal, com poucos recursos, dependendo do apoio popular e das redes sociais.

Mesmo diante do boicote institucional e da incerteza eleitoral, alcançou votação expressiva e foi eleito pelo voto de mais de 57 mil paranaenses. 

Perseguição se repete e intensifica na Assembleia Legislativa

A chegada à Alep inaugurou uma nova fase de perseguições, nesse período Renato se consolidou como um dos principais nomes da esquerda do sul do Brasil, potencializando o alcance das suas políticas e denúncias, mas também fazendo novos inimigos políticos. 

O Conselho de Ética passou a funcionar como tribunal inquisitório e mecanismo de intimidação da atividade parlamentar. Mais de 70% das representações desta legislatura são direcionadas a Freitas.

Desde sua primeira visita à Assembleia, Renato percebeu o clima hostil: foi seguido por policiais e tratado como suspeito dentro da própria “Casa do Povo”, para qual tinha sido democraticamente eleito.

Em um caso recente, o Conselho de Ética  pediu pela suspensão de 30 dias após Renato participar de manifestação por justiça por Rodrigo Boschen, assassinado por funcionários do Super Muffato.

Outro episódio ocorreu em 2023, quando o então secretário de Segurança Pública, coronel Hudson Teixeira, protocolou pedido de cassação após o parlamentar repercutir na tribuna os dados do relatório do Ministério Público do Paraná sobre execuções em supostos confrontos policiais e o aumento da letalidade policial. 

Mesmo sob tentativa de intimidação do secretário, Renato seguiu fiscalizando a segurança pública e denunciando irregularidades. Em 2025, o parlamentar, em um discurso na tribuna, pediu explicações sobre a morte do detento Marlon Luiz de Barros que teve a transferência solicitada pelo irmão do coronel Hudson. O traficante preso tinha informações sobre uma milícia que atua na Cidade Industrial de Curitiba (CIC) e foi encontrado enforcado no mesmo dia da transferência. Renato levantou suspeitas também sobre mudanças na corregedoria e na direção do Deppen, justamente contra aqueles que trabalhavam na investigação da morte.

A denúncia resultou em mais uma representação contra Renato, dessa vez protocolada pela atual diretora do Depen, Ananda Chalegre, que o acusou de cometer violência de gênero. Mesmo com a gravidade da denúncia feita por Freitas, a relatora do processo no Conselho de Ética, deputada Márcia Huçulak (PSD), pediu a punição de Renato com perda de prerrogativas por 30 dias. 

O iminente risco de perda do mandato de Renato Freitas não é aleatório, mas o resultado de diversas tentativas fracassadas de punir o parlamentar, que vem se intensificando desde que Renato decidiu expor a corrupção do ex-presidente da Casa e atual presidente da CCJ, deputado Ademar Traiano (PSD). Na época, Traiano recebeu tratamento especial do Conselho de Ética da Casa quando foi representado por ter pedido e recebido propina do empresário Vicente Malucelli, enquanto Freitas foi punido por chamá-lo de corrupto — mesmo após provado que Traiano confessou a corrupção em um acordo com o Ministério Público.

Ninguém cala um de nós!

A trajetória de Renato Freitas ultrapassa sua biografia individual. Filho de empregada doméstica, criado na periferia da região metropolitana de Curitiba, enfrentou dificuldades materiais, precisou trabalhar cedo e sofreu para concluir a educação até que se formou advogado, tornou-se mestre em Direito e se consolidou como uma das figuras mais imponentes da esquerda paranaense.

Renato veio do mesmo lugar que muitos de nós. Cresceu enfrentando as mesmas ausências, violências e limitações impostas ao povo periférico, negro e trabalhador do Paraná. E mesmo após a ascensão ao Poder Legislativo, não mudou sua postura e sua forma de encarar a vida. Sua presença nas instituições incomoda justamente porque rompe uma lógica histórica: a de que corpos negros não transitam nos espaços de decisão.

A perseguição ocorre não pelas falhas do parlamentar, mas pelas virtudes. O alvo apontado nas costas de Renato Freitas tem o objetivo de exterminar todas as pessoas negras e pobres que se refletem nele. A perseguição, sucessão de processos, abordagens e tentativas de censura não pode encerrar um mandato conquistado democraticamente por mais de 57 mil votos.

No dia 6 de junho, em Curitiba e em todas as cidades onde houver apoiadores, vamos para a rua nos manifestar. É momento de defender um mandato que nos representa. Porque Renato é um de nós. E ninguém cala um de nós. #RenatoFICA

 

Ato Renato Fica, em Curitiba, no dia 6 de junho

 

Créditos Foto: Assessoria/Renato Freitas.

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