Família pede justiça por adolescente de 14 anos executado pelas costas por PM em Cambé; execução foi flagrada em vídeo

Vídeo contradiz tese de confronto apresentada pela polícia. Jovem já havia sido ameaçado por policiais meses antes da morte.

Imagens gravadas por moradores de Cambé registraram parte da ação policial que executou o adolescente Luan Henrique dos Santos Leite, de 14 anos, no norte do Paraná. O vídeo mostra duas viaturas da Polícia Militar em alta velocidade por uma rua da cidade. Instantes depois, um jovem aparece correndo. Um dos policiais desembarca da viatura e dispara diversas vezes em direção ao adolescente; no vídeo, é possível ouvir mais de 20 tiros, atingindo o jovem pelas costas. O adolescente morreu no local.

Segundo relatos, Luan conduzia uma motocicleta emprestada de um amigo, enquanto outro estava na garupa, quando passou a ser perseguido por policiais militares. Sem carteira e com medo da abordagem, teria tentado fugir por alguns instantes até ser alcançado e assassinado.

A Polícia Militar sustenta que houve confronto. A versão é contestada diante dos vídeos; as imagens mostram que o adolescente foi morto pelas costas.

Antes da ação que tirou a vida de Luan, o adolescente tinha sofrido ao menos duas abordagens, que teria sido motivada por uma bicicleta motorizada que utilizava para circular pelo bairro. Em uma das abordagens, os agentes fizeram ameaças de morte contra o garoto. Assustado, decidiu vender a bicicleta. Para a família, a tentativa de fugir da abordagem pode ter sido motivada pelo medo que sentia, devido justamente a essas ameaças.

Criado pela avó, a quem chamava de mãe, Luan é descrito como um garoto amoroso e trabalhador. Na tarde do dia 17 de maio, saiu para encontrar amigos. Horas depois, o jovem mandou uma mensagem para a avó pedindo R$10 para comprar um lanche. Foi a última conversa entre os dois.

O último dia de Luan

Domingo, Marilene, mãe de Luan, estava de folga do trabalho e decidiu passar o dia na casa da filha, em um bairro próximo. Ela foi com um carro de aplicativo acompanhada da neta. Luan preferiu ir de bicicleta.

Na casa da filha, a família almoçou reunida. Ao entardecer o adolescente avisou que encontraria alguns amigos.
Segundo relatos, os jovens foram a uma lanchonete, no momento da abordagem, Luan pilotava a motocicleta de um colega, e havia outro amigo que estava na garupa, quando passaram a ser perseguidos por equipes da Polícia Militar.

Nas imagens, registradas por moradores, duas viaturas aparecem em alta velocidade. Logo em seguida, Luan surge correndo pela rua de pé. Um policial desembarca do veículo, sem qualquer ordem de parada aparente, faz uma série de disparos pelas costas de Luan, é possível contar mais de 20 tiros. O adolescente foi atingido e morreu ainda no local.

Marilene foi informada da morte do filho através da ligação de um amigo. Os familiares foram até o local, mas chegando lá foram impedidos de se aproximar da vítima. A mãe, afastada por uma fita de isolamento, sem conseguir ver o corpo, precisou mostrar uma foto de Luan para ter a confirmação de que ele era o jovem assassinado.

Diante da informação, passou mal e precisou ser levada para uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA). No deslocamento até a unidade, a família foi seguida de forma intimidatória pelos policiais envolvidos na ação.

Quem era Luan

Luan Henrique dos Santos Leite tinha apenas 14 anos e foi criado pela avó, a quem chamava de mãe. O adolescente é descrito como afetuoso, educado, trabalhador e tranquilo. Ele estudava durante a semana e fazia pequenos trabalhos para ter alguma renda. 

O jovem não usava drogas, nunca havia sido preso ou respondido a processos criminais. Luan sonhava em conseguir um emprego fixo para ajudar financeiramente em casa. Apaixonado por motocicleta e querido por todos, gostava da companhia dos amigos do bairro.

No dia do velório, centenas de pessoas acompanharam a despedida e organizaram uma homenagem que percorreu ruas de Cambé antes do sepultamento.



 

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